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São assim, os trasmontanos!

por aquimetem, em 08.04.15

 

J Rentes de Carvalho em Estevais.jpg

Estevais (Mogadouro)

          Aquele “Paraíso terreal” que Torga enalteceu é como todos sabem um “alfobre” de génios nas mais diversas áreas do saber humano, que só por muita sorte se conseguem enumerar. Nessa sementeira consta um José Rentes de Carvalho que melhor passei a conhecer desde que descobri o site Tempo Contado e ali passei acompanhar alguns dos passos dados e contados por este ilustre transmontano que embora nascido em Vila Nova de Gaia é de sangue e formação mogadourense.

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          No Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses, de Barroso da Fonte, consta que José Rentes de Carvalho: é de descendência transmontana, fez os estudos liceais no Porto, em Viana do Castelo e em Vila Real, tendo ainda frequentado as Faculdades de Letras e de Direito em Lisboa. E diz ainda, entre o mais, que por razões politicas foi obrigado a deixar Portugal e por isso viveu em Paris, Rio de Janeiro, São Paulo, Nova Iorque, tendo nessas cidades trabalhado para os jornais O Correio Paulistano, O Estado de São Paulo, O Globo e a revista O Cruzeiro. Temos deste intelectual que em 1956 foi viver em Amesterdão, onde trabalhou como assessor do adido comercial da Embaixada do Brasil, e se licenciou na Universidade local, com a tese "o povo" na obra de Raul Brandão,  mais um dos co-comprovincianos  notáveis da diáspora.

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          Com um pé na Holanda e outro em Portugal este apreciado escritor revelou-se como romancista em 1968, com Montedor, tendo posteriormente publicado em Portugal mais dois romances (o Rebate, em 1971, e A Sétima Onda, 1984). Após a reforma, este insigne transmontano, nascido a 15 de Maio de 1930, continuou a carreira de jornalista e romancista, editando e colaborando em várias publicações portuguesas, brasileiras, belgas e holandesas. Em 1991 foi agraciado com o grau de grande comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Esta minha singela homenagem vem na sequência de um documentário que terça-feira, dia 07, a RTV2 passou a respeito dele e eu calhei de ver, graças a um alerta que pessoa a amiga me deu. São assim os trasmontanos!

 

 

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publicado às 20:15


16 comentários

De Anónimo a 10.04.2015 às 14:32

... "SER TRANSMONTANO É UMA RELIGIÃO". - Jorge Lage

De Anónimo a 13.05.2015 às 18:20

J.RENTES DE CARVALHO , NASCEU A 15 de MAIO DE 1930

IN TEMPO CONTADO - EXCERTO

...
Quarta-feira, 18 de Maio - Uma citação do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa: « A ruína da influência aristocrática criou uma atmosfera de brutalidade e de indiferença pelas artes, onde um medidor da forma não tem refúgio. Dói mais, cada vez mais, o contacto da alma com a vida. O esforço é cada vez mais doloroso, porque são cada vez mais odiosas as condições exteriores do esforço.
A ruína dos ideais clássicos fez de todos artistas possíveis e, portanto, maus artistas. Quando o critério da arte era a construção sólida, a observância cuidadosa de regras __ poucos podiam tentar ser artistas, e grande parte desses são muito bons. Mas quando a arte passou de ser tida como criação, para passar a ser tida como expressão de sentimentos, cada qual podia ser artista, porque todos temos sentimentos.»

Olhando para a realidade que nos cerca é impossível contradizer Pessoa. Sem obedecer a regras e ignorante de que a estética existe, nas últimas décadas o populus deitou-se a escrever, ciente de que as balbúcias do ego são uma expressão de arte; que dos espasmos da bebedeira, da anorexia nervosa, do incesto, do amor aos cães, da ecologia - de tudo, afinal, mesmo os espíritos mais simples podem tirar um livro ou uma obra de arte. E os editores editam, os museus compram, o populus admira-se e regozija-se consigo próprio.
Daí que talvez Joyce e Proust, tendo aberto com o seu génio um inesperado caminho aos sem talento, sejam dos grandes da literatura e simultaneamente se possam contar entre os seus verdadeiros «malfeitores.» Freud faz-lhes companhia e Marx, que ajudou a criar as ilusões que se sabe, completa o quarteto.

(...)
Sexta-feira, 20 Maio - Amanhã parto para Lisboa e mais tarde irei passar duas semanas na nossa aldeia, a cumprir a visita semianual que faço à minha mãe. Em Maio sozinho, de avião. No Outono com a Loekie, de carro. Peregrinações que não sei exactamente para que servem, pois mal quebram a solidão em que ela vive e a mim muitas vezes amarguram.

(...)
Domingo, 22 de Maio - Uma das razões desta viagem é escrever um ensaio sobre Eça de Queiroz para o número da revista Oog in `t zeil que será dedicado a Lisboa, e o meu intento é ilustrar o texto com fotografias dalguns locais lisboetas relevantes na vida e na obra do escritor que exerceu uma influência determinante na minha formação. ...

(...)

A chuva cai ainda sem cessar, mas é provável que de vez em quando surja uma aberta. Rumo para a cidade pela auto-estrada, por entre um trânsito pacato, e estaciono...
..., Mas as bátegas continuam, numa fúria de ajuste de contas.
Sem melhor destino volto ao hotel e de novo me surpreende o tamanho da suíte. Acendo as luzes todas para afugentar o cinzento da tarde, lavo os dentes, olho para o mar, ligo a televisão. Mas logo a desligo, incapaz de suportar a hilaridade parola do apresentador d`Roda da Sorte.
Em cima da cómoda o meu computador portátil é uma presença amiga, mas não me sinto com vontade nem forças de trabalhar. Escrevo algumas anotações vestido sobre a cama, com saudades de casa,fazendo o possível por afastar os pensamentos negros...

... São oito da noite. Acendo novamente todas as luzes, espalho os jornais sobre a cama, olho distraidamente o noticiário da televisão. Como se desde os tempos imemoriais do fascismo nada tivesse mudado, ela ou nos oferece as imagens dos dignitários no poder em longas inaugurações de fontenários e escolas, ou então mostra-no-los a detalhar pontos de vista duma banalidade excruciante. Corto o som até que anunciem a previsão do tempo.
Tiro do minibar um sumo de laranja e um saquito de amendoins e sento-me a comê-los numa das poltronas presidenciais do salão. Ao levantar-me embarro contra uma mesinha baixa e o canto de metal abre-me um lanho na perna.
Não uma arranhadela, mas um lanho fundo que sangra como se fosse uma facada. No quarto de banho ponho-lhe um esparadrapo, mas o sangue não para, obrigando-me a embrulhar o ferimento numa toalha.
Deito-me na cama de pernas para o ar para que a circulação diminua e é nessa incómoda posição que vejo que, pelo menos nos próximos dois dias, o conhecido anticiclone dos Açores continuará a empurrar chuva para o continente.
...
In Tempo Contado

De Anónimo a 14.07.2015 às 19:27

IN PÓ, CINZA E RECORDAÇÕES


- EXCERTOS -

(...)

" Não sou como sou, nem como me quero, nem como me julgo. Sou como os outros me vêem. Um eu que desconheço."


"Na vida ninguém escapa a cometer asneiras, mas eu, por razões de carácter e temperamento, e de uma muito pessoal incapacidade de julgar, tenho cometido um número excessivo delas. Algumas sem importância de maior, outras com consequências determinantes para a minha vida.
De vez em quando recapitulo esta e aquela situação em que asneei, interessado em saber se a sageza que se supõe acompanhar os anos me permitirá descobrir os motivos do meu comportamento passado.
Pena perdida. Em circunstâncias idênticas creio que procederia da mesma maneira e indiferente ao prejuízo próprio, o que me leva a concluir que não se deve tratar de uma questão de livre escolha, mas de uma forma de determinismo.
Assim me desculpo das asneiras que fiz e me sei incapaz de evitar as que me esperam."



"É daquelas histórias que me deixa secretamente a invejar o talento anónimo que a criou.
O menino viu o vizinho escultor começar a cortar o mármore, e nos dias seguintes, quieto, sentava-se junto dele, a apreciar o trabalho.
Finalmente o cavalo apareceu esculpido, e o artista perguntou ao menino o que ele achava.
O menino achou que estava bem.
- Só bem ? - insistiu o escultor.
- Sim - respondeu o menino. E depois de um momento de hesitação :__ Mas como é que o senhor sabia que o cavalo estava dentro da pedra? "


"Com o seu vazio, os silêncios e, como hoje, de tempo cinzento, o domingo não é o dia mais adequado para deitar contas à vida. Mas como nada acontece que dê outro rumo aos meus pensamentos, aqui estou a perguntar-me por que razão me não deu o Criador um carácter mais compatível com o dos meus semelhantes. E sonho como deve ser bom pertencer a um clube, aderir a um partido, a uma seita, cantar num coro, em vez de fazer da minha vida uma repetição do muito citado, mas raramente lido "Voyage autour de ma chambre", de Xavier de Maistre."



" «Ele nunca conseguiu romper.» Num mundo em que só se conta quando se pertence aos vencedores, a frase ressoa com ecos de desdém.
Li-a sobre mim próprio, a propósito de um dos meus romances, devastadora como uma declaração de impotência. Escrevia o crítico que, mau grado certa qualidade do meu trabalho, eu não conseguia romper no favor do público e, por conseguinte, a fama e o proveito das grandes tiragens continuariam fora do meu alcance.
Aquilo não me surpreendeu, mas deixou-me o desagradável sabor de um epitáfio, pois todos gostam que se lhes reconheça um lugar ao sol. Mais tarde, reconsiderando, decidi que de facto o crítico tinha razão: o meu trabalho nunca conhecerá o favor de grandes massas de público, nem eu viverei a embriaguez das dezenas de edições e dos fundos que lhes correspondem. E se assim teve de ser, assim seja.
Já antes me tinha surpreendido o editor que afirmava: «Os escritores têm de aprender a ser editados», e agora oiço uma colega que vende centenas de milhares de livros a insistir que o êxito não o deve apenas ao talento, mas ao cuidado com que gere a sua imagem e a sua carreira.
Eu tenho uma vaga suspeita de que no caso dela e alguns outros assim é, mas no que me respeita está isso fora de questão, pois não me vejo com imagem e continuo incapaz de gerir o que quer que seja."



"Vou ao lar despedir-me da minha mãe. A tarde está serena, sentamo-nos no banco de pedra do jardim, numa conversa que é mais monólogo dela que diálogo nosso. Queixa-se, censura, resmunga, acusa o médico, o padre, o pessoal ...
Cai numa sonolência e cabeceia. Acorda. Sorri. Olha em redor, puxa-me pela manga para que me aproxime e sussurra, como se fosse segredo:
- Prà gente se levantar, primeiro precisa de ter caído."

(...)


J.RENTES DE CARVALHO




De Anónimo a 25.09.2015 às 15:56

« Deus criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de Maio de 1930. E eu, quando uns quatro anos depois comecei a observar "conscientemente" a Sua criação, não o fiz como seria de esperar, apenas com os olhos que Ele me tinha dado à nascença, mas quase exclusivamente através dum binóculo.»

De Anónimo a 08.10.2015 às 10:34

" A noite de Natal passaram-na como já se tinham habituado: as mulheres sozinhas e caladas, a fazer renda em volta da lareira; o rapaz na taberna com a meia dúzia de borracholas que, reconhecendo nele um parceiro, se atreviam a desafiá-lo, troçando da fraca arte que mostrava no amanho da terra.
Tinha alguém reparado como ele semeara as Cortes? Nuns sulcos não crescia uma planta sequer, noutros com certeza tinha deitado a semente por um funil, tão desiguais eram os tufos de verdura. Via-se logo que aquilo eram mãos de janota da cidade. Mas nada de zangas! «Ó ti Faustino, meça uma ronda para alegrar a rapaziada! Venha outra, para que se festeje como deve ser o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mais uma, ó ti Faustino, mais uma que a paga aqui o nosso lavrador diplomado.» "

In Ernestina

Grande Escritor este Senhor, pleno de transmontaneidade ...
Espero que sempre perspasse para "todos os que escrevinham", ou de perto ou de longe, a sua sabedoria e experiência, principalmente em «prole» dos transmontanos! ...

De an a 18.11.2015 às 13:01

...
«A quinta estende-se por uma escarpa soalheira da serra, e a casa solarenga, construída num ponto alto em fins do século XVIII, prolonga-se num terraço de vista soberba.
A ocidente fica o Atlântico. Correndo os olhos passa-se o cabo de São Vicente, a ponta de Sagres, adivinham-se Lagos, Portimão, Albufeira. Para sul a cor do céu adensa-se e o oceano amansa, torna-se mediterrâneo. Com o dia a nascer, a água ganha reflexos prateados que o passar das horas irá dourando, até que vira ao carmesim, quando o sol no poente prenuncia as labaredas do fim do mundo.
Sentou-se, como tem hábito, no canto do terraço onde o arvoredo faz durar a sombra. Terminou o pequeno- almoço que as «Manas» lhe serviram, olha a paisagem, acende o primeiro cigarro. O correio e os jornais ali à mão ficam para mais tarde. A adiar. Tempo, deveres,, inquietudes, tudo em suspenso. O momento que mais lhe agrada.
Um milhafre voa em círculos largos, estaca, dispara para o roseiral e numa curva grácil retoma o voo, as garras vazias. Ataque falhado.
Acontece, diz consigo. Puxa a cafeteira e enche de novo a xícara, mexe, repara que esqueceu o açúcar. Dois torrões? Um? Nenhum.
Alheado, continua o mexer inútil, olha o relógio ao ouvir o ruído do jipe que sobe a encosta. Sete e meia. Tem de ser o Samuel. Homem pontual.
«Homem pontual. Competente e de respeito. Como antigamente.» Vinte anos passados, as palavras do avô a ecoar.» (...)

De anonimo a 27.11.2015 às 16:37

(...)...
Felizmente, de carácter menos rude que o dos meus companheiros da escola, se não acreditavam no que eu lhes dizia também não zombavam de mim, e passado o relâmpago da dúvida começávamos outro jogo. Ou sentávamo-nos à espera que o senhor Pinto, que tinha uma loucura mansa e vestia o uniforme esfarrapado que usara na Flandres durante a Grande Guerra, aparecesse à varanda e apontando-nos a bengala começasse a gritar:- «P`ró outro lado, car´ ho! Pr`ó outro lado!»

Fingindo que escapávamos a um perigo, deitávamos a correr para o adro da igreja à procura dum medo. Se era hora do angelus, o braço de D.Maria Clara aparecia fantasmagórico, envolto em seda preta, a puxar a corda que, da janela entreaberta do seu casarão, alcançava até à torre da igreja. ...

In Ernestina

De an. a 18.01.2016 às 15:17

In Pó, Cinza e Recordações

Terça-feira, 7 de Dezembro

Estou quase certo que já antes o escrevi, mas não há mal em repeti-lo: falador nunca fui, e cada vez gosto menos de falar. Afectado pelo certeza de que poucas vezes digo por inteiro o que queria dizer, travado pela sensibilidade, pelo respeito que os outros me merecem, pelas boas maneiras, por uma aversão inata às situações de conflito.
Assim, o modo mais sincero e mais harmonioso de me exprimir continua a ser a escrita. A minha porta de saída para o isolamento.A narrativa como bóia de salvação.

De an. a 18.01.2016 às 15:25

Quarta-feira, 8 de Dezembro

A impressão é a de uma febre colectiva. Na informática e nas bolsas em redor do mundo, a árvore das patacas parece ter-se tornado realidade, fazem-se fortunas astronómicas de manhã para a tarde, tudo se conta em milhões, em milhares de milhões.

Mas como sempre na ordem das coisas, é provável que o movimento se faça um dia em sentido contrário, e que as fortunas tão facilmente ganhas se evaporem com igual facilidade.

Para compreender esses fenómenos é que gostaria de ter estudado Economia,porque na simplicidade do meu pensamento de leigo nunca se me torna claro donde vêm as fortunas que alguns ganham, nem para onde vão as fortunas dos que perdem.

De an. a 18.01.2016 às 15:37

Segunda-feira, 17 de Janeiro

No gesto tradicional de gratidão, minha avó Elisa costumava juntar as palmas das mãos e erguê-las ao céu, ao mesmo tempo que recitava:- LOUVADO SEJA O ALTÍSSIMO!
Umas vezes fazia aquilo com solenidade, noutras dava a impressão de ironizar. Ontem, quando terminada a conferência me vi na rua, tive vontade de imitá-la.
O público tinha sido simpático, dando ideia de que me saíra bem do encargo. Contudo, num ambiente daqueles só se sente de facto à vontade quem nele nasceu ou ambiciona pertencer-lhe.


In Pó, Cinza e Recordações

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